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BBF Curioso: Não fuja para a Bolívia – III

Parte III – Butch Cassidy e Sundance Kid; Che Guevara; Klaus Barbie e Cesare Battisti: conheça quatro casos famosos de fugitivos que se deram mal em terras bolivianas

Conteúdo exclusivo BBF Brasil. Plágio é Crime!

Caso 3 – 1972 – Em algum lugar do Altiplano

Se havia algo mais odioso do que Hitler (já declarado morto), no final da Segunda Guerra Mundial, eram os nazistas que conseguiram escapar das tropas aliadas. Muitos vieram para a América Latina porque tinham muitos ‘fãs’ que ocupavam cargos importantes nos governos. Enquanto o ‘anjo da morte de Auschwitz’, Josef Mengele, vivia a sua liberdade no litoral de Bertioga, em São Paulo, Brasil; outro filho do capeta vivia nos trópicos bolivianos: Klaus ‘Barbie’ Altmann (batizado Nikolaus Barbie – 1913-1991).

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Os dias do conhecido ‘Açougueiro de Lyon’ na Bolívia começaram a ter um fim, a partir da publicação de uma série de reportagens do jornalista Ewaldo Dantas Ferreira, no Jornal da Tarde (entre 1972/73). O paradeiro do nazista conhecido como ‘o carrasco de Lyon’ (também tinha o ‘apelido carinhoso’ de ‘o açougueiro de Lyon’) finalmente havia sido confirmado. Para quem não faz a mínima ideia de quem era Barbie, é importante dizer que ele odiava crianças judias (Anne Frank foi para Holanda para fugir do nazista). Ah, ele também tinha um ódio mortal do líder da Resistência Francesa, Jean Moulin. Após a traição de um ‘amigo’, Moulin foi preso e torturado pessoalmente pelo chefe da Gestapo (polícia secreta alemã), e não resistiu aos ferimentos. O nazista considerava essa morte como um prêmio.

Documento de Klaus Barbie na Bolívia. Reprodução/Acervo Polícia Secreta boliviana.

Ewaldo foi o primeiro jornalista a entrevistar Barbie na Bolívia por pura sorte do destino. Segundo uma entrevista do jornalista, na época com 81 anos, concedida à revista ‘Problemas Brasileiros’, de março de 2007, a série de reportagens sobre o ‘açougueiro de Lyon’ surgiu após o jornal francês “L’Aurore”, em 1972, publicou que que havia uma suspeita de que o nazista vivia na Bolívia como um comerciante abastado e de muitos contatos com membros do alto escalão do governo. A informação levou os maiores veículos de comunicação do mundo a enviarem os seus jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas até o país sul-americano em busca de umas das maiores entrevistas do século XX.

Dois momentos: Barbie idoso durante julgamento, e jovem atuante do Nazismo. Reprodução/Hemeorteca.

Barbie, que até então vivia tranquilamente, foge do local porque tinha medo de ser assassinado ou sequestrado. É nessa fuga cinematográfica em que o jornalista brasileiro enviado por “O Estado de S. Paulo” encontra a grande chance da sua vida profissional: foge junto com o nazista num fusquinha pelo altiplano boliviano. Conversa vai e conversa vem, e entrevistas surgem:

Uma grande aventura, trabalhando à noite, fugindo de madrugada e ouvindo as revelações de um homem que matara milhares de pessoas, mas continuava convicto do trabalho que fizera”. (revista Problemas Brasileiros, março de 2007)

Quando o jornalista brasileiro conseguiu entrevistá-lo, Klaus Barbie já estava condenado à morte (foi julgado e condenado à revelia) e foragido na Bolívia. Durante a entrevista, o nazista defende os seus atos na Segunda Guerra Mundial (para ele, não há nada de ilícito). No seu julgamento na França, ele se considerou ‘inocente’, e disse que não matou judeus, e sim, matou muitas pessoas que lutavam contra a ocupação nazista na França (ele era o comandante da repressão à Resistência Francesa). Barbie era procurado por todo o mundo, e as reportagens de Ewaldo Dantas Ferreira deram um ponto final à caçada ao nazista. O jornalista também deu uma aula de jornalismo ao mundo quando se recusou a dizer como descobriu o paradeiro de Klaus, mantendo as suas fontes em segredo.

No dia seguinte à publicação do primeiro capítulo da série, o governo francês pediu a extradição do nazista ao governo boliviano (que negou a autenticidade da entrevista). O jornalista teve o cuidado de fazer com que Klaus Barbie assinasse todas as páginas datilografadas do depoimento. Em janeiro de 1983 (dez anos depois da publicação da entrevista), Barbie é preso na Bolívia e extraditado para a França onde foi julgado e condenado à prisão perpétua. Morreu de câncer na prisão em 1991.

Em 1987, Klaus Barbie (algemado) é julgado e condenado num tribunal na França, por crimes contra a humanidade. Reprodução.

A série de reportagens foram reunidas no livro ‘Depoimento do SS Barbie=Altmann’. Eu era bem menina quando li esse livro pela primeira vez. Reli outras vezes e sempre me emociono. É um dos livros de não-ficção mais chocantes que já li. A obra foi relançada em 2003. Bons tempos do jornalismo investigativo!

Matéria exclusiva BBF, publicada originalmente em 15/01/19). Atualizada em 15/05/21). Proibida reprodução. Direitos autorais reservados.

Gostou? Acesse já o quarto e último caso do BBF Curioso: Não fuja para a Bolívia

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